quarta-feira, 13 de julho de 2011

Autistas, procuram-se


Thorkil Sonne, fundador da Specialisterne
Quando um homem soube do autismo do filho resolveu que isso haveria de ser uma vantagem no mercado de trabalho.
Concentração. Memória. Atenção aos   pormenores.  Capacidade de repetir muitas   vezes   a mesma tarefa,  o  mesmo  gesto,  sem  se distrair. Obsessão com ordem e com classificações. Persistência. Estas qualidades são importantes em algumas áreas profissionais - por exemplo, na informática. A um nível  elevado  são  raras.  As pessoas com autismo tendem a tê-las mais do que as outras. É lógico aproveitar tal diferença. Assim faz uma empresa dinamarquesa especializada em testes de software.
A Specialisterne (Especialistas, em dinamarquês) foi fundada por Thorkil Sonne, um executivo de uma firma de telecomunicações. Quando há onze anos souberam que o seu filho de 3 anos tinha autismo, ele e a mulher começaram a pensar como o poderiam ajudar a ser feliz. Concluíram que nada teria mais valor para Lars do que um trabalho onde as suas características particulares fossem apreciadas.
Não bastava encontrar uma tarefa que ele pudesse fazer. Tinha de ser algo em que fosse especialmente qualificado, para o valorizar e o compensar das outras limitações - sociais, sobretudo - com que teria de viver.
A resposta veio após contactarem organizações de apoio a pessoas com Transtornos do Espetro Autista (TEA). Estes transtornos têm em comum a dificuldade em perceber sentimentos alheios, em ler gestos e sinais, em captar sarcasmo, mas variam imensamente em grau e manifestações, desde as quase imperceptíveis até as incapacitantes.
No lado leve do espetro está a síndrome de Asperger, cujas vítimas, geralmente descritas como altamente funcionais, incluem um bom número de gênios. Consta que Einstein apresentava indícios de Asperger. E mesmo pessoas muito menos fluentes do que ele - e portanto, com desordens em zonas mais graves do espectro - podem ser extraordinárias nas respetivas áreas profissionais. A chave estava, portanto, em descobrir uma área adequada.
Mão-de-obra de primeira 
A Specialisterne verifica software e outras coisas que exigem um enorme grau de atenção - por exemplo, a localização detalhada de redes de fibra óptica. Dos seus 50 e poucos empregados, 75% têm autismo. Ao serem aprovados para entrar na empresa iniciam uma formação de cinco meses financiada pelas câmaras municipais. 
É o único apoio que a empresa recebe, uma vez que não existe tradição de empresas de responsabilidade social na Dinamarca, segundo explica Sonne. O investimento sai barato, tendo em conta o que se poupa em subsídios de desemprego e outros. Um funcionário chamado Mads diz que em mais de vinte anos é o primeiro emprego que consegue manter e acrescenta: "A maioria dos meus colegas são como eu. Temos em comum sermos esquisitos". Terminada a formação a maior parte dos empregados são alocados externamente, junto dos clientes da Specialisterne. A assistência técnica que dão é considerada 'premium', e paga a altura. Não é mão-de-obra barata nem terapia ocupacional, frisa Sonne em repetidas declarações. É trabalho de primeira fornecido por uma empresa comercial. Porque só assim, em última análise, gera resultados. "A nossa organização precisa do tipo de financiamento que só uma empresa com fins lucrativos pode gerar. Tem de ser bem sucedida em termos de mercado". O objetivo último de Sonne é exportar o modelo de negócio pelo mundo fora. Com esse objetivo criou uma fundação à qual entregou as ações da Specialisterne. Escócia, Islândia, Alemanha, Polónia e os Estados Unidos já adotaram ou vão adotar o modelo, e Sonne recebeu meia-dúzia de prémios europeus. A sua expectativa é que, quando o agora adolescente Lars for adulto, a situação tenha mudado o suficiente para ele não ter problemas de empregabilidade. 
Reduzir o stress
Quanto aos atuais empregados da empresa, as histórias que contam falam por si mesmas. Um trabalhava antes num supermercado. Apesar de altamente inteligente, nunca conseguia passar nas entrevistas de emprego, onde o que conta é a famosa química emocional. Aí ele falhava. Sonne sugere que todas as pessoas são sociais, embora de formas diferentes. O fato de alguém não dizer bom dia não significa que não goste de conviver de vez em quando. E a dificuldade em suportar ruído, típica dessas desordens, pode implicar em alguns ajustes no escritório (sobretudo se for um 'open space'), mas não torna ninguém inapto para trabalhar. "As pessoas com autismo não são os únicos empregados que não florescem em 'open space' ou no sistema tradicional de gestão", afirma. O essencial é adaptar às características das pessoas, não impor o mesmo ambiente a todas. "Isso só provoca estresse, e os locais de trabalho já produzem demasiado disso". À sua estratégia dá um nome: filosofia dente-de-leão. O dente-de-leão é uma planta que muitas pessoas vêm simplesmente como erva daninha. Outras apreciam-na como planta medicinal, rica em vitamina e ferro. "Uma erva daninha é uma planta bela no lugar errado", diz Sonne. E quem decide se o lugar é errado ou certo é a sociedade. 


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